quarta-feira, março 20, 2019




24º Encontro : Uma visita especial. 

Tinha prometido ao meu amigo que iria visitá-lo. Não temos nos encontrado na Academia, o que tem quebrado nossos encontros diários, mas não diminui nossa amizade,nem nossa afinidade. Afinal amigos, independente da distancia ou dos contatos, a amizade se mantém intacta.
Aproveitei e levei um livro, para inspirá-lo nos seus escritos. (O tempero da Vida – de Gilbert Keith Chesterton).
Contou-me que a medicação Xofigo, havia chegado e fez a primeira aplicação. Um produto radioativo, com muitos cuidados na aplicação e depois , com aferição com um detector de radioatividade. A expectativa é pela extinção das metástases no esqueleto. O indicador para isto, ainda é o PSA , que deve diminuir, se funcionar.Passados dois dias da aplicação, nem um efeito colateral ou indisposição. Trina dias depois , a segunda aplicação. Antes disso, exames de controle, para aferir a resposta.
Ele continua com o moral elevado apesar dos percalços do dia a dia. Não tem sido fácil enfrentar esta doença, que escamoteia de um lado para outro, sempre que se sente aprisionada ou encurralada por medicações e tratamentos. As quimioterapias são uma prova disso. Algumas têm o poder de minguá-la até determinado ponto e às vezes extingui-la, mas via de regra, ela resiste, como se ficasse crônica , encapsulada, inerte.

Parece esta aprendendo a viver cada dia.

Sua rotina mudou. Sem as corridas, apenas caminhadas, sem o encontro diário na academia, sente falta dos amigos e colegas . Tem mais tempo para ler e escrever, embora não na velocidade habitual e inspiração que gostaria.

Dizem que a fé remove montanhas, disse-me ele que nem precisam ser montanhas, apenas pequenas partículas da doença. Mas também ele sabe que o tempo de Deus é diferente do tempo dos homens. Ter perseverança e resignação , parece ser o caminho. 

JT Brum 2019

 

 

quarta-feira, março 06, 2019



23º Encontro: Novas perspectivas de tratamento

Ainda não encontrei meu amigo na academia. Falei com ele por telefone. As noticias são boas. Esta há 7 dias sem febre. Mais animado e vencendo a fadiga. Voltou o apetite, embora esteja difícil de recuperar o peso e a aparência.
Segundo ele, seu PSA estabilizou num patamar considerado alto, por isso , uma nova droga alemã chamada Xofigo, que tem por finalidade ir pelos ossos e eliminar as metástases. É um radiofármaco radioativo, que busca as células comprometidas. Segundo o médico, são três aplicações, uma por mês.Começaria nos próximos dias, assim que chegasse a importação.
Com isso novas perspectivas de tratamento e animo para meu amigo. Ele me relatou da corrente de relatos e apoio recebido neste período.Isto certamente dá forças para ele continuar lutando, muitas vezes contra um inimigo oculto, como no caso das febres, e muitas vezes , a própria doença fica em segundo plano.  Só com muita fé e perseverança, para continuar nesta batalha diária.
O apoio da família tem sido decisivo, e é nestas horas que se sente o carinho e a força de todos.
A Medicina todos os dias lança mão de novos tratamentos que buscam encontrar pacientes que se beneficiem deles. No entanto, cada um tem um DNA na sua doença e acertar na mosca, é uma tarefa complicada.
Depois de recebi noticias de meu amigo, fiquei mais confiante na sua recuperação e nas perspectivas do novo tratamento.

J T Brum 2019

 


quinta-feira, fevereiro 28, 2019



22º Encontro : Ressurgindo do fundo do poço. 

Depois de algumas semanas sem noticias, fui atrás para saber o que estava havendo com meu amigo. Sumiu da Academia. Falei inicialmente com sua esposa. Depois com ele. Foi um choque. Emagreceu. Olheiras profundas. Respiração curta. Poucos dias tinha perdido 2 kg.
Então ele com voz pausada, contou que estava sendo vitima de uma Febre Obscura, que lhe acometia normalmente à noite, e que em função dos antitérmicos, depois disso suava de molhar a cama e lençóis. Superada esta fase, dormia, já muito desgastado e às vezes pela manhã outra febre surgia. Disse-me que estava lutando há mais de vinte dias. Sua fadiga não lhe permitia muitos movimentos. As escadas eram um desafio.
Foram dez dias hospitalizado. Neste período fez todos os exames possíveis. Nada que justificasse o aparecimento das febres. O médico resolveu em consenso com a família, que era melhor ter as febres em casa, do que ali no Hospital, dado aos riscos de infecção hospitalar .
Ele parecia estar melhorando. Nas últimas vinte quatro horas , estava sem febre. Mais animado.
Fui embora, certo que voltaria na próxima semana para revê-lo, Deus queira melhor. 

J T Brum 2019

 


segunda-feira, janeiro 28, 2019



21º Encontro    Reflexões sobre a vida.

 

 

Fui à Academia, naquela manhã de primavera, em que o tempo homenageava a vida. Chegando, vi o meu amigo conversando com outro companheiro – que também enfrentava uma situação de saúde momentaneamente adversa –, e com dois professores. O tema prometia: falavam sobre a fragilidade da condição humana.

Meu amigo expunha que na semana passada tinha escutado alguém cético, depois de visitar uma clínica de idosos, afirmando que o homem é como uma casca de noz na correnteza, incapaz de controlar o rumo da sua própria vida, sendo levado em frente mesmo contra sua vontade, impulsionado pelas circunstâncias aleatórias, boas ou más.

Naquele mesmo instante me lembrei de uma frase, que ouvi de meu pai ainda criança, e a repeti a eles: “Um braço vigoroso não é mais aguerrido contra a lança do que um braço frágil; são o caráter e a coragem que fazem o guerreiro”. Em outras palavras, a grande chave que abre as portas da vida plena está na mente e não no físico.

 Mesmo que se esteja ocasionalmente vivendo uma situação de redemoinho, com a sensação de que não podemos mudar o curso inexorável dos acontecimentos, ainda assim é possível observar que sempre há alternativas e opções de conduta para lidar com a situação – qualquer que seja a adversidade do momento.

Ouvi do meu amigo e dos outros companheiros que estavam ali reunidos gestos de confirmação plena dessa verdade. Um deles disse que, mais do que uma convicção, esse é um sentimento intuitivo, com a percepção formada ao longo da existência.

Acrescentei que somos de fato, todos nós, pessoas complexas, e todos podemos sentir ou demonstrar certa fragilidade, mas somos, na realidade essencial, forjados de algo que transcende substancialmente a matéria aparente, e aí seguimos movidos por forças extraordinárias que nos emocionam e orientam a cada novo dia para os melhores caminhos.

 Assim, mesmo que não tenhamos resposta para diversos acontecimentos de nossa vida, e às vezes com a consciência de que não sabemos enfrentar determinada situação, há algo que nos move para diante. Ao reconhecer certas limitações para seguir num determinado rumo, que em princípio nos pareceria o preferível, a verdade é que, a partir desse reconhecimento da própria fragilidade física, e da consciência da fortaleza moral, se apresentam outros tantos caminhos a serem percorridos.

 A consciência da limitação ou da imperfeição, com a certeza de que somos amados apesar de tudo, são os elementos que nos fazem verdadeiramente humanos e nos fortalecem para a tomada das pequenas ou grandes decisões de cada dia.

O meu amigo observou, sobre esse ponto, que, quando deixamos de pensar apenas em nós e somos capazes de sentir as dores do outro, de ter compaixão e de vibrar com a descoberta das espantosas estradas que se abrem para cada um de nós, não importa em que circunstância da existência nos encontre, aí estará à essência da vida.

Nossos vínculos com a sociedade, com os amigos, em especial com nossa família, nos amarram e ligam como participantes deste processo, independente do poder aquisitivo, nível social ou cultural de cada um de nós.

Na Academia vemos isto diariamente. São pessoas, seres humanos, numa sociedade em busca de qualidade de vida, de saúde, e muitas de convívio social. Muitos têm nos amigos da Academia, seus únicos pontos de referencia e seus pontos de apoio. Outros, calados, fechados na sua ilha de isolamento, não tomam conhecimento sobre o que se passa ao seu redor, entram e saem , sem compartilhar nem participar da vida aos demais integrantes. Quem está certo? A vida dirá.

Feitos os exercícios do dia, saímos todos para nossas casas, com o eco dessas constatações e sob a luz da primavera.

 

JT Brum 2019

segunda-feira, janeiro 21, 2019



20° Encontro: Pelo retrovisor

Estamos quase no fim de ano. Época de arrumações, planos de férias, balanço do que se passou. Eu e meu amigo não somos diferentes e nossa atividade na Academia continuava a pleno vapor e os planos também.
Propus a ele, rever fatos que juntos passamos nestes últimos dois anos, em especial neste ultimo, que ainda estão mais presentes na nossa memória. Foram dias de alegrias intercalados por alguma angustia. Nossos encontros serviam de amortecedor e anteparo, para os solavancos desta estrada, sinuosa e com muitos percalços.
Relembramos os primeiros dias da suspeita, da recomendação da biopsia e do tiro fatal do diagnóstico. A confirmação do câncer.
A partir daí, a historia não precisa se recontada, nem relembrada. Tivemos bons momentos entre nossos exercícios e bate-papos. Muitos de extremo gosto e humor, outros de suporte e conforto, de amigo para amigo.
Tenho testemunhado a força e a fé com a luta para vencer suas batalhas diárias. Nem sempre bem sucedido no primeiro momento, mas logo em seguida, recupera-se e segue em frente. Cair e levantar. Buscar forças em Deus. Ele me agradece e diz que sou generoso em minhas palavras.
Um fato ele fez questão de relembrar, foi o encontro com meu filho, na Academia. Do olhar de espanto dele, quando o apresentei como o amigo, pelo qual rezávamos em família, todas as noites . Rezamos por muitos amigos doentes, alguns em grandes dificuldades de saúde. Quando ele ouviu o nome, arregalou os olhos e deve ter pensado, este não precisava das suas orações!!
Meu amigo disse saber que, muitos rezam pela sua saúde. Pessoas sem muita afinidade e também pessoas próximas. Reconhece no entanto, as suas próprias orações não têm a intensidade e a fé necessárias, para promover a cura. Nisso lhe ajudava muito os períodos passados no CAPC, no Ribeirão da Ilha. Era como estar no céu , aqui na terra.
Nos dias atuais, meu amigo passava por um período de trégua na medicação (quimioterapia). A avaliação do comportamento do tumor, nos próximos meses, determinaria a estratégia a se adotada. Como era assintomático, ao menos teria um fim de ano, sem as complicações e efeitos colaterais da medicação.
Meu amigo fez menção também da iniciativa de fazer um curso de Escrita Criativa. Sua opção para canalizar na escrita suas tensões , emoções e criatividade parecem ter dado certo. Ele está muito motivado e conta dos escritores famosos que tem se apresentado no curso e como obtiveram sucesso: Trabalho. Trabalho e Trabalho. Nada vem pronto. Isto de certo modo confirma o que diz o escritor Haruki. “Há que se ter certo talento, mas concentração e perseverança é a chave para a grande maioria dos mortais que se dedicam a escrever e conseguir algum sucesso.”
Entediado e baixo astral, se junta à falta de inspiração, e ai o texto não flui. Os pensamentos ficam repetitivos, e a seleção torna-se cansativa. Por isso persistência e concentração. Saber do tempo dedicado a escrever tem que ser bem aproveitado e eficientemente produtivo.
Pinçar detalhes e fatos ao nosso redor. Ouvir opiniões e revisar os últimos dias, nos ajuda a moldar, de forma organizada os pensamentos e colocar no papel aquilo, para nosso leitor mergulhar e sentir. Sentir empatia com o texto.
Meu amigo alega nestes dias de fim de ano, com tanta agitação e reboliço, tem tido dificuldades, para colocar nos textos, com exatidão o que muitas vezes se passa na sua cabeça e reproduzir nossas conversas. Possivelmente um mecanismo de freio e preservação esteja sendo ativado, inconscientemente e ele sinta-se invadido, no seu interior. Sempre temos coisas só nossas, pequenas dores que não nos queixamos e desagrados da alma que não confessamos. Os seres humanos são complexos, independente da idade, da saúde ou nível social. Nem por isso desiste. Continua a buscar palavras adequadas e frases que correspondam ao seu íntimo e que façam sentido para os leitores. Não quer transformar seus escritos numa via sacra de sacrifícios e peripécias, num relato de prontuário médico, onde pode-se ler as melhoras e quedas da qualidade do tratamento. 

JT Brum 2019

 


segunda-feira, janeiro 14, 2019




19° Encontro : Mutações. 

Nos encontramos hoje cedo na Academia. Estávamos ávidos pelos exercícios e pelas novidades. Meu amigo entusiasmado com as noticiais e informações do médico Oncologista.
Seu PSA chegou a 13 e com isto a estratégia a ser adotada será da suspensão das quimioterapias, para ir avaliando novamente o comportamento do tumor e a remessa de metástases no organismo, em especial para os ossos, no caso de próstata. Há uma relação de tempo decorrido e a velocidade de crescimento do PSA. Mensalmente faria exames para avaliar, bem como dos demais marcadores.
Ele sabia que a situação era de apreensão , mas convivia com isto , com certo otimismo e esperança.
Falamos sobre amigos e pessoas conhecidas. É assustador o número de pessoas vitimas de doenças novas a cada dia. Possivelmente por que nosso circulo de amizades e referencias sejam pessoas com mais de sessenta anos. Nesta faixa, o Alzheimer, Parkinson, depressão, câncer de estomago, de pele etc.
Já nas camadas mais jovens, infelizmente outras mazelas ocorrem, como a depressão, as drogas, e por vezes algum tipo de câncer fulminante, como no caso, os de mama e melanomas.
Graças aos diagnósticos precoces, estas doenças têm sido identificadas e tratadas com sucesso, na maioria dos casos.
Meu amigo me alertou para um aspecto que tem orientado sua vida e seus contatos. Quando lhe perguntam como vai, responde que está ótimo. Não fala da doença, nem “curte” uma situação de vítima, nem se lamenta ou se queixa. Só os mais próximos sabem do andar do seu tratamento. Ainda mais agora que parou com as quimios e esta passando os efeitos colaterais deste tratamento . Perde a cor amarelada e os cabelos voltam. Até então, esta escrito na testa  “Em tratamento oncológico”.
Um amigo da academia veio nos falar do conto que tinha lido. Disse que isto , o fez lembrar sua infância em Pelotas e as dificuldades da época , para ter o uniforme completo, em ordem no dia do desfiles. Até sapato marrom , ele pintou de preto, para poder desfilar.
Voltamos a comentar sobre as pesquisas e tratamentos do câncer e as dificuldades dos médicos, embora diagnosticada a doença, em acertar as medicações, dosagens e prescrições a seus pacientes. Os estudos têm mostrado , as mutações dos tumores, ao longo dos anos. A avaliação de DNA de um tumor realizado há três anos, considera-se obsoleto, tais as alterações que sofre.

Como cada paciente tem características próprias e que muda ao longo dos anos .É impossível ter dois iguais, como as digitais individuais.. Com isto, só por tentativa , erro e protocolos catalogados, são possíveis os tratamentos. Por isso, as melhoras e regressões dos pacientes são tão frequentes. O próprio organismo e os tumores, criam resistências às drogas, protegendo-se e buscando formas de escapar do extermínio.
Nisso está uma das vantagens do diagnostico precoce, quando as células tumorais ainda estão suscetíveis ainda aos tratamentos convencionais.
Mas a principal mutação do ser humano está no seu interior. Na forma como ele vê a doença, com se relaciona com ela, como encara seu dia a dia. Aqui já comentamos muitas vezes sofre as fases de negação, contestação, revolta, e aceitação. Este processo continua ao longo dos anos, dependendo da fase do tratamento e dos resultados destes, em relação à doença. Esta deve ser a principal mutação por que passa o paciente, embora não seja detectável nos exames.
Paramos de falar de doença e passamos a falar dos  colegas que se preparam para a Maratona de Porto Alegre. Alguns vão correr pela primeira vez. Outros já calejados, conhecedores do percurso e das peculiaridades , para enfrentar o frio da manhã e o calorão a partir das dez horas. Será no próximo fim de semana.

JTBrum 2019