terça-feira, dezembro 11, 2018




14º Encontro     Reveses à vista !

Encontrei meu amigo na Academia. Estava bem depois dos ias que passou em Montevidéu. Mas tinha que voltar a realidade. Os exames não deixavam dúvida: seu PSA subia geometricamente. Sua folga as quimios estava indo ladeira a baixo. Era disciplinado e sabia que os tratamentos funcionam bem em determinadas situações.
Comentamos sobre a situação o Uruguai e outros países da América Latina. Infelizmente muitas semelhanças, para pior. Voltamos aos nossos exercícios. Ele não parecia muito animado. Embora não sinta os efeitos dos exames recém feitos, . Tinha vontade de correr. Foi o que diz que faria no dia seguinte.  A endorfina era a vitamina que reforçava o seu ânimo.
O verão estava chegando. As corridas na praia lhe faziam muito bem. Tinha amigas vizinhas que o convidavam para correr cedinho. Sentia-se integrado ao pequeno grupo de corridas. Poucas vezes, com tanta ênfase confessou-me sua paixão por correr. Lembrou-me do livro que lhe dei . Já saboreou quase todo...
Nos próximos dias iria ao médico para confirmar quando iniciaria com as quimios. Certamente de 21 em 21 dias. Ele levava em torno de dez dias para se recuperar e ter sua imunidade restabelecida. Depois era aproveitar os dias restantes.
O médico confirmou a nova quimioterapia. Diferente da anterior : Cabasetaxel e um dia após uma injeção na barriga de Neuslatin. Segundo o médico ameniza os efeitos colaterais.
Tudo parecia voltar aos eixos. Já que não conseguia se desgarrar da doença, o negócio é seguir em frente levando-a a tiracolo na sua jornada. Segundo ele , sua família estava mais conformada. Tinham assimilado que era uma doença crônica , cujo tratamento é longo e permanente.
Alguns homens de fé têm conseguido a cura. Mas cada um tem suas contas para pagar e suas penitências para fazer. Meu amigo não se lamentava nem perdia o otimismo. Às vezes ficava sem aquele sorriso alegre, mas logo se recobrava.
Confessava que o segredo estava em encontrar uma nova perspectiva de vida. Uma nova forma e carregar suas dificuldades dentro das limitações que a situação permitia.
Achar algum hobby novo. Pintar. Cantar, ou escrever. Coisas que se fizessem sonhar de novo. Esta tentativa tinha que ser autentica, vir de dentro. Do âmago. Para produzir os efeitos desejados.
Dizia ele que mesmo estando ruim, poderia ficar muito pior. Então era aproveitar o momento! Sentia-se apaixonado pela vida.
Meu amigo , procurou na escrita uma forma de canalizar suas aspirações, sonhos e paixões. Mostrou-me uns textos.  Dei força. Disse que iria fazer um curso de Escrita Literária, para aperfeiçoar as técnicas da escrita e de imaginação criativa.
Dizia que para escrever , realmente há que se ter certo talento, mas que concentração e perseverança, são ingredientes essenciais , sem os quais nada se consegue. Ter ritmo e poder de concentração é fatores decisivos para escrever.
Mais um fim de semana chegando e a possibilidade de ir para a praia, na casa dos parentes, o deixava animado. Tomar sol. Correr com as amigas. Até uma cervejinha tomava...

JT Brum 2018


sábado, dezembro 01, 2018




Mensagem do amigo.

 

Recebi um cartão postal do meu amigo. Pela ilustração pude constatar que era de Montevidéu. Ele nem me avisou que iria viajar. Ou de férias ou a negócios. Quem sabe outra razão...

Apreciei pela lembrança e pela dedicatória :

Amigo de todas as horas, meu fiel escudeiro. Aqui em terras distantes, sinto falta dos nossos papos e dos teus conselhos , sempre tão pertinentes e confortadores .Com um abraço forte ...”

Ele andava meio misterioso nos últimos dias, não sei se pelo tratamento ou pela evolução da sua doença.

Tenho visto ele receber o apoio e a força dos amigos próximos e outros até distantes que acredito que ele acaba incorporando esta energia na ua vida.

Vou aguardar o seu retorno, acreditando que volte cheio de energias e muita saúde.

 

JTBrum 2018

segunda-feira, novembro 26, 2018




13º Encontro : Angústia antecipada !! 

A vida seguia seu rumo. Nada de novidades. Meu amigo parecia estar em paz com seu tratamento. Segundo os exames, o PSA neste fim de mês tinha atingido o menor nível,(0,58) e a perspectiva de fazer a última quimioterapia da série , o deixava muito feliz.
A esperança de aproveitar o calor e a vida normal deste fim de ano, abria novas portas para quem está há muitos meses, num regime severo de tratamento. A observação do médico era que, daria um tempo nas quimios e continuariam monitorando os níveis do PSA. A velocidade de aumento e o tempo decorrido, serviriam para avaliar o processo de estabilidade ou perda do controle.
Não havia o que fazer, como se cuidar, ou se preservar. Como meu amigo era assintomático (não tinha sintomas nem do PSA, nem das metástases, dores ou qualquer sintoma) seguia sua vida normal. Apenas os efeitos colaterais das quimios.
Boa alimentação, exercícios físicos dentro dos limites e cabeça boa, continuava ser o seu mantra, para enfrentar as dificuldades geradas pela doença.
Voltou a Florianópolis, no Ribeirão da Ilha. Contou-me ele, que na triagem , com tantas pessoas em piores situações, não foi possível ficar internado. Eram mais de duzentas pessoas, aguardando por uma oportunidade para ficar internado. Quarenta são escolhidos. Os demais fazem as terapias no sistema externo. Ia nos horários definidos e depois voltava para a pensão. Com isto pode aproveitar e fazer caminhadas, correr um pouco e descansar. Voltou na quinta feira à noite. Não era a mesma intensidade, mas era o possível naquelas condições.
Passados 60 dias do ultimo exame, o PSA foi de 1,5. Aparentemente normal, mas acendeu uma luz amarela de atenção, pois estava sem quimio e era normal que tivesse um aumento. A questão era, que curva seguiria este crescimento ou se estabilizaria?
Comecei a percebê-lo mais angustiado nos últimos dias. Sem a espontaneidade natural que o caracteriza. Embora não quisesse, parecia antever que os resultados dos exames não seriam tão alvissareiros. Procurei tranquilizar e colocar seu moral para cima. Ele ria desajeitado , querendo compensar a agonia que sentia , com piadas e brincadeiras. Segundo ele, a angústia é a sensação psicológica que se caracteriza pelo sufocamento, pelo peito apertado, ansiedade e falta de humor. De acordo com os que estudam esta questão, na filosofia, a angústia surge no momento que o homem percebe a sua condenação à liberdade, por isso se sente angustiado já que sabe que é o senhor do seu destino. E ele não tinha nenhum poder sobre o seu destino...
Segundo meu amigo, estas preocupações, afetavam seu sono, sua alimentação e seu humor....Com isto , todo o processo do seu metabolismo ficava afetado, num circulo vicioso, que o joga para baixo e impede de ver com clareza e isenção a realidade dos fatos. Ser portador de uma doença crônica, que não teria uma solução rápida e fácil.
Eu sabia que esta fortaleza toda, muitas vezes , deixaria a guarda aberta, permitindo que os vilões do espírito e das perturbações da alma, penetrassem no seu íntimo e numa reviravolta, instigassem sentimentos negativos adormecidos e nada promissores.
Ai que entra a fé e a oração. Quem tem espiritualidade e acredita num ser Superior não pode se abater, nem se permite prostrar-se numa submissão aos males do espírito.
Na nossa casa, sempre rezamos pelos amigos. E ele era um dos favoritos da lista, pois conhecíamos bem suas necessidades e tínhamos enorme afeição por ele. Meus filhos rezavam sem conhecê-lo, até quem um dia , o mais velho estava junto na academia, e resolvi apresentar meu amigo. Ele ficou surpreso, por certo imaginava um velho esquelético e com os dias contados. Tenho a certeza que suas orações a partir daí tornaram-se  mais fervorosas.

 

JT Brum 2018


segunda-feira, novembro 19, 2018



12º Encontro : O Caminho percorrido ...

Sempre que nos encontrávamos na academia era um motivo de satisfação. Dei um presente. Um livro de Haruki Murakami : “Do que eu falo quando falo em Corrida”.Meu amigo abriu o pacote e um largo sorriso, agradecido. Fiz uma dedicatória desejando três décadas de corridas e de saúde !!
 Fomos aos exercícios...
Lá pelas tantas, ele comentou dos resultados efetivos da quimioterapia, no seu PSA : de 8,6 em maio, para 0,58 agora em setembro. Era a quinta quimioterapia. A expectativa era de uma série de seis aplicações. Estava debilitado , mas satisfeito com os resultados.Ai me perguntou se lembrava , há quanto tempo esta lutando com esta doença? Não soube responder com precisão, nem tentei arriscar. Ele então me disse com certa euforia:
— Dois anos. Completei em junho.
Daí, começamos a recordar os primeiros momentos: da suspeita, até a confirmação da biopsia e exames complementares. O inicio do tratamento e os bons resultados no uso da medicação. Até que não funcionou mais e nova alternativa de médico. Opção por outra forma de tratar: quimioterapia.
 Os meses passam rápido, a vida também...
Estava ganhando tempo e isto é tudo que precisava nesta fase . A perspectiva de suspender as quimios, a partir de outubro enche meu amigo de expectativa . Terá um verão pela frente, bem diferente do inverno chuvoso e frio que passou, enfurnado em casa, sem muitas atividades, nem as caminhadas na rua.
Disse-lhe o médico que, sessenta dias após parar com o tratamento, cessam os efeitos no organismo e a regeneração das células começa a acontecer de forma gradativa Por isso seu entusiasmo, não só com o cabelo, a cor da pele, mas especialmente pela corrida, pelo qual era um apaixonado.
A propósito questionei sobre suas paixões e motivações. Ele pensou e elencou as que julgava mais significativas. Apaixonado pela vida, pela família e pelos amigos. Pela atividade física, em especial a corrida e o esporte. Apaixonado pelo Grêmio e alguma paixão secreta, deixada pelo caminho...
Motivação ? O trabalho e sua capacidade de se amoldar a novas situações. Quem tem comércio e tem que enfrentar diariamente, legislação, equipamentos, software , fluxo de caixa e recursos humanos. Fica como malabarista de circo, com os vários pratinhos girando e não podendo deixar cair nenhum.
Neste balanço que fizemos, no período de dois anos, recordamos de muitos amigos e conhecidos, que partiram em definitivo. Alguns colegas da academia, saudáveis e praticantes de esporte. Acidentes cardiovasculares e razões fulminantes. Outros motivados por doenças já adquiridas ao longo dos anos e que culminaram com o óbito. O que prova em definitivo que ninguém tem sua hora anunciada e só Ele dá e Ele tira, no momento certo. Perguntei-lhe também de outras lembranças marcantes que ficaram deste período de tratamento?
— Dos profissionais de Saúde, nos laboratórios, clinicas e hospitais. A gentileza e carinho com que atendem. Fica acima do profissionalismo, supera a expectativa dos pacientes, que como eu , busco seus serviços, na esperança de melhora e conforto.
Ele lembrou uma recepcionista de um Hospital, onde fazia as quimios. Sempre sorridente e prestativa. Dizia ela que, agradecia a Deus todos os dias antes de vir para o trabalho, por poder trabalhar na Área da Saúde . Ter contato e ajudar pessoas que vinham inicialmente para uma consulta, depois para exames e por decorrência, para tratamento. Ela acompanhava a todos, com a mesma e devotada atenção. As enfermeiras do Bloco do Câncer , quase uma dúzia, ele as conhecia pelo nome e elas vinham cumprimentá-lo, mesmo que não estivessem na escala, para atendê-lo. Isto amenizava o peso de seu fardo e todas tinham uma palavra de conforto , fé e esperança no resultado do tratamento.
Disse-me que estava na hora de voltar ao CAPC (Centro de Apoio ao Paciente com Câncer) no Ribeirão da Ilha, em Florianópolis. Tinha ligado e estava aguardando o agendamento. Era uma maneira de recarregar as baterias físicas e espirituais, que lhe faziam tanto bem.  

JT Brum 2018

 

 


segunda-feira, novembro 12, 2018




11º Encontro : Os sinais evidentes e intangíveis do tratamento. 

Quando meu amigo chegou na academia e não retirou o boné, suspeitei que algo não ia bem. Conversamos rapidamente e fomos ao local de alongamento. Ali ele despiu-se do boné. Mostrou a cabeça. Os cabelos caíram, em chumaços. Manchas irregulares. Pareciam que tinham sido arrancados, não cortados.
Contou-me que, nesta terceira quimioterapia, ao tomar banho, enquanto lavava a cabeça, sentiu os fios entre os dedos. Para ter certeza que a água havia retirado os que estavam por cair, continuou esfregando.... Só aumentava a quantidade de cabelos no ralo. Um choque.
Dizem que passados os efeitos do tratamento, os cabelos acabam voltando. Seu PSA tinha caído consideravelmente. Isto ajudava a manter o moral. Nada que os efeitos benéficos não justifiquem o susto. Ele como os demais mortais, submetidos a esta bomba química, estava sujeito aos efeitos colaterais. Não tinha como fugir disso.
Nestes dias, parou de correr com os colegas . Via-os saindo, mais preferia ir sozinho. Suas energias tinham sido absorvidas. O vigor se esvaiu, sobrava vontade e animo, mas faltava o essencial : força nas pernas e pulmão para aguentar o ritmo. Conseguia apenas correr um km e caminhar um.  Trotava, não corria com o mesmo ímpeto de antes. Uma decepção, mas era o necessário para manter a autoestima e mentalizar que, uma vez suspenso o tratamento, voltaria a correr , como no passado recente.
Mesmo os jogos de tênis acabaram-se. Nem treinos. A condição física deteriorava. Mantinha os exercícios da academia. Para quem era ativo como ele, a chama do gás diminuía , o calor e as endorfinas também. Não podia suportar a idéia de ficar ocioso, lendo jornal de pijama, ou fazendo pequenas caminhadas no jardim de casa.
Passados três dias das quimioterapias, já acordava e tomava café. Calçava os tênis para caminhar ou ir para a academia. Ele gostava disso. Parecia mantê-lo mais forte e vivo.
Uma colega da academia o viu passar correndo na Nilo Peçanha, perguntou-me de onde vinha esta vontade de correr e este astral para enfrentar a doença.
 Respondi: — Da cabeça boa e da fé em Deus. Ele é um otimista e isto vai ajudá-lo a vencer ou a sofrer menos, nesta sua luta diária.
Mas também havia máscara de forte, de auto-suficiente e otimista que usava nestas circunstâncias. Muitas vezes, me confessava sentir-se perdendo as esperanças e usando o sorriso, o positivismo e a superficialidade sobre a doença, como despiste, para não provocar na família, nem nos amigos a sensação de derrota e autopiedade.
 As limitações físicas e psicológicas que passava a enfrentar, com a tez da pele amarelada, a cabeça sem cabelos e as renúncias obrigatórias, o carimbavam definitivamente como portador de um câncer de próstata e cujo tratamento ainda seria longo e indefinido.
 Tudo o que fizesse , seria considerado superação, muito embora até então, ele não contasse com isto, para manter-se bem, apesar da idade, fisicamente saudável e com muitos planos para o futuro. Tudo é relativizado e carimbado com a pecha de idoso portador de doença crônica.
Isto o incomodava muito . Desprender-se do status de auto-suficiente, para compulsoriamente ser considerado quase um inválido pela sociedade, amigos e pela família. Ninguém dizia isto abertamente, mas nas entrelinhas, podia notar estas avaliações e até preocupações com seu estado de saúde. Antes ninguém se preocupava se estava resfriado, com tosse ou com dor no joelho. Hoje em dia, uma lupa indiscreta encima dele, pronta para expor qualquer suspeita de fragilidade ou fraqueza.
Estas divagações serviam de catarse para meu amigo e eu procurava reforçar naquilo que achava pertinente. Acabávamos os exercícios e continuávamos a bater papo, sempre muito animados e em alto astral. Até para mim tinha um valor especial, pois gozava de uma vida saudável, mas ninguém pode garantir uma permanente qualidade de vida e saúde. A prevenção e os exames periódicos são a chave do sucesso, nos dias de hoje. 

J T Brum 2018

 


segunda-feira, novembro 05, 2018

10º Encontro: Enfrentar a quimioterapia.





10º Encontro: Enfrentar a quimioterapia.


Mais uma semana de exercícios na Academia. Meu amigo disposto a enfrentar o monstro invisível da quimioterapia. Segundo ele, seu diálogo com o Oncologista anterior era uma preocupação que só existia na sua cabeça, pois os médicos estão acostumados com estas situações de desistência e desejou-lhe boa sorte.
Seu novo Oncologista, conforme havia combinado, prescreveu o tratamento e encaminhou o pedido ao Plano de Saúde. Isto o colocava na marca do pênalti. Devia estar pronto para enfrentar o processo, embora o médico dissesse que ele suportaria bem.
Aproveitou a consulta e deu detalhes do que é a quimioterapia, sua origem, tipos , indicações e aplicações. Disse ele que, a origem dela, vem do gás mostarda, usado nas duas guerras mundiais. Os médicos e pesquisadores estudando os efeitos, no organismo de soldados sobreviventes, passaram a tratar linfomas malignos. Desde então a quimioterapia vem sendo aplicada em diversos tipos de câncer, seja com o intuito paliativo, para melhorar a qualidade e prolongar de vida do paciente, ou curativa, com a finalidade de acabar definitivamente com o tumor (associado ou não à cirurgia e a outros tratamentos). Os efeitos colaterais relacionados à quimioterapia, surgem porque os compostos químicos destinados a atingir as células doentes, acabam alvejando também as células saudáveis, especialmente as renováveis como as do cabelo, unhas, aparelho digestivo e boca. Como estas se reabilitam dentro de um determinado tempo, pode-se repetir novamente um novo ciclo, respeitada a recuperação do paciente.
No mundo de medo e incertezas de quem descobre um câncer , é necessário reconquistar uma postura positiva e confiante. Isto seu médico enfatizou, com sendo um ponto alto, da sua atitude como paciente.
Quanto aos efeitos colaterais, disse que eram muito pessoais e dependiam de uma série de fatores, que com atenção iam ser acompanhados e minimizados com medicamentos.
Primeira quimioterapia marcada para dia 24/5, às 9 horas. Os dias que antecederam foram tensos e apreensivos. Ele sentia que enfrentava um fantasma invisível, uma doença imaterial , que não deixava vestígios , a não ser nos exames, especificamente no PSA (Antígeno Prostático Especifico). Como ele era assintomático, por um lado não sentia efeitos diretos da doença ,no entanto , convivia na escuridão dos cuidados e precauções.
No dia e hora marcados, lá estava ele , com sua esposa de acompanhante, para se submeter à primeira dosagem. A Sala de Espera, era uma pequena amostragem, do público que buscava este tipo de tratamento. Pessoas jovens, senhoras idosas, homens em cadeiras de rodas. Alguns usando boné, outras lenços na cabeça. Um ambiente sereno mas carregado de dor e sofrimento, demonstrado por parte dos acompanhantes. Ele não se sentia assim. Apenas ansioso. Assistia os pacientes saírem. Desconhecia as condições individuais. Imaginava no entanto, que ele sairia lépido e sem outras complicações.
Na sua vez, foi levado a uma saleta individual. Acomodado numa poltrona reclinável para puncionar sua veia. Ai uma sequência : soro, antialérgicos, corticoides e finalmente a medicação quimioterápica prescrita (Docetaxel). Tempo de aplicação de todo o processo de três a quatro horas. Periodicidade : 21/21 dias.
Terminado o processo, sentia-se como se tivesse de ressaca. Cabeça pesada e as pernas lentas. Era uma quarta feira e meu amigo ficou se restabelecendo até a próxima semana. Mas segunda feira lá estava ele, firme e querendo retomar os exercícios. Eu estava curioso para saber como tinha sido e ele me relatou o que acima descrevi. Quanto aos efeitos, ele sentia algum enjoo, mas nada que um Plasil não resolvesse. Diz que ficava se escutando, para sentir onde notaria alguma alteração. Tudo estava bem, sem complicações. Nesta semana não iria correr com o grupo. Tinha que se preservar, por enquanto. Recomendações do médico: Cuidado nos primeiros 10 dias, quando a imunidade fica mais baixa. Não frequentar locais aglomerados, nem se expor a temperaturas baixas. Sinalizar ao médico qualquer novidade ou efeito indesejado. Afinal era a primeira de uma série de no mínimo de seis a oito sessões.
Três dias antes de cada sessão deveria fazer um hemograma e um PSA, para avaliação da imunidade e do efeito a medicação no tratamento efetivo do câncer. Sua rotina parecia comprometida definitivamente, mas seu estado de animo não. Continuava confiante e positivo. Cabeça boa e exercícios físicos, era a chave do tratamento.
Tinha um caminho pela frente a percorrer, com muita fé e determinação, para vencer esta doença nefasta, que a tantos atinge , mas nem todos abate.  

J T Brum 2018

 

segunda-feira, outubro 29, 2018



9º Encontro : Aonde está a criança feliz que habitava aqui? 

O encontro na Academia  era todas as manhãs. Nas terças e quintas feiras meu amigo ia correr com o grupo de Corridas. Ai era só um papo rápido . Nos demais dias, tínhamos tempo para nossas conversas e considerações sobre o dia a dia.

Neste dia, ele manifestava a inquietação com o resultado dos exames e PSA. Depois de começar a tomar a nova medicação (Abiraterona) há alguns meses, os números não representavam melhora nos índices. Ao contrário, subiam a cada mês.
A família em polvorosa, buscava entender o que estava acontecendo, mas sem conhecimentos suficientes, sobre o que fazer e como proceder. O Oncologista de posse dos resultados e avaliando o período decorrido, sugeriu mudar para outro medicamento chamado de Enzoladamida.
Nestas alturas , os filhos buscando alternativas, marcaram uma consulta com outro oncologista. Um médico mais novo e mais afeito as novidades dos tratamentos , pesquisas e estudos da área de oncologia, especificamente de próstata.
Nesta consulta explicou ele: a troca de um medicamento por outro, não teria resultados, pois elas eram “primas” na sua composição. Além disso, como o tumor tinha características de agressividade (Gleason 8). Sugeria um tratamento também agressivo, para enfrentar o problema. O baixo volume de doença era uma vantagem a ser aproveitada. As metástases estavam concentradas nos ossos e com evolução controlada. O tratamento quimioterápico era o recomendado. Acreditava que o paciente suportaria bem o tratamento. Pelo seu estado físico e pelo astral apresentado.
 Saiu da consulta com mil questões. Não imaginava ter que enfrentar tão rapidamente, aquele monstro imaginário, representado pela quimioterapia e seus efeitos colaterais.
Tinha algumas questões a resolver. Voltar ao seu oncologista e dizer que não faria mais o tratamento com ele. Meu amigo tinha certo apego ao médico, pois havia uma empatia e cumplicidade com ele desde o inicio . Mas a família tinha razão: o tratamento não estava funcionando. E isto era o fundamental.
Nestes dias, ainda comentamos sobre sua experiência ao CAPC (Centro de Apoio ao Paciente com Câncer) em Florianópolis. Ele lembrava, que nestas reflexões e nas dinâmicas, surgia uma questão central, para a felicidade e paz interior dos participantes. Onde se perdeu a criança feliz que havia dentro de nós? Fazer esta busca e resgatar era nosso grande desafio. Em que momento começou a mudar, esquecê-lo ou esconder-se atrás de uma máscara ? Onde anda aquele menino ou menina que brincava alegre e sem preocupações?
 Fazer esta regressão é buscar na infância, adolescência ou na vida, onde nos perdemos. Cada um tem suas justificativas, para ter feito esta escolha, mas agora era o momento de resgatar e trazer à tona, tudo aquilo que nos fazia felizes e íntegros. Principalmente agora, para enfrentarmos as dificuldades de uma doença, ou para todos que buscam a felicidade, longe das máscaras impostas pela família, pela vida profissional ou pela sociedade, com seus estereótipos e padrões de comportamento.
A propósito me falou de um livro recomendado: “O cavaleiro preso na Armadura” de Robert Fisher, uma fábula para quem busca a Trilha da Verdade. Fiquei de comprar, para ler e buscar a minha verdade!
Ponderei a ele, que todos deveriam fazer este exercício salutar e as terapias têm esta finalidade. Até a pouco, se você falasse estar fazendo terapia, logo era taxado de desequilibrando ou com alguma debilidade mental.
Na próxima semana , meu amigo terá decisões importantes a tomar. Vai precisar ter fé, tranquilidade e acreditar que o melhor, ainda estava por vir. 

JT Brum 2018